Em meio a uma densa e fechada floresta, portões de ferro e muros de pedra gigantescos cercavam uma imponente e sombria fortaleza. No centro do complexo, se erguia um palácio monumental cuja simples presença pesava o ambiente numa imensa opressão sob um céu eternamente acinzentado de dia e de um negro profundo durante a noite.
Nos aposentos mais internos e sombrios daquele santuário do Mal, o líder supremo recebia um de seus servos, que se ajoelhou imediatamente aos seus pés:
— Mestre... Nós já estamos identificando várias crianças-prodígio pelo planeta. No entanto, ainda não conseguimos rastrear nenhum sinal do Primaz.
— Muito bem — respondeu a voz cavernosa do líder. — Recrutem o maior número possível dessas crianças para formar o nosso exército. E, assim que encontrarem o Primaz... o matem imediatamente, antes que ele desperte! Agora, vá!
O subordinado se curvou e se retirou rapidamente da presença de seu senhor.
O ano era 1993. Gabriel ingressava na 1ª série do Ensino Fundamental, mas os seus problemas invisíveis continuavam a acompanhá-lo silenciosamente. Naquela turma, a grande implicância da professora era com a caligrafia do menino, que parecia torta e desalinhada no caderno:
— Gabriel, a sua letra é muito feia e tem alguma coisa errada com a sua escrita. Acho que você não enxerga direito o que eu escrevo na lousa.
— Tia, eu enxergo sim! — se defendeu o garoto, franzindo os olhos. — Eu consigo ver bem o quadro.
— Então faremos o seguinte: vou falar com a sua mãe para te levar ao oftalmologista. Se o médico disser que você não tem nada na vista, eu te pago um refrigerante no recreio!
A mãe marcou a consulta e, no dia agendado, acompanhou o filho até ao hospital. No consultório, o médico posicionou Gabriel diante do quadro de leitura e apontou para as letras:
— Me diga quais letras você está vendo ali, garoto.
— Vejo A... R... F... X... I...
O médico trocou a lâmina para uma linha de caracteres menores:
— E agora?
— B... L... C... O... P!
O médico virou-se para a mãe e sorriu:
— Olha, mãezinha... O seu filho tem uma visão perfeita. Não há problema algum nos olhos dele.
No dia seguinte, Gabriel voltou radiante à escola e contou o resultado à professora. Na hora do recreio, cumprindo rigorosamente a promessa, ela comprou e entregou-lhe o refrigerante gelado.
Aquele ano seguiu com marcos importantes na família, como a comemoração de um ano da sua sobrinha, e o fortalecimento da amizade com Lino, o colega com quem fizera natação no ano anterior. Os dois tornaram-se inseparáveis: se sentavam juntos na sala de aula, brincavam no recreio e até as mães de ambos se aproximaram, fazendo compras juntas no supermercado. Parecia uma amizade que duraria para sempre.
— Gabriel, para de andar para lá e para cá com esse carrinho pelo mercado! — pedia Lino, rindo da agitação do amigo.
— Eu só estou passeando com ele... — respondia Gabriel, empurrando a estrutura de metal.
— Mas não pode! O moço do mercado vai ver e vai brigar com a gente.
— É que eu não consigo ficar parado só olhando para o carrinho, Lino...
Porém, em um dia comum, veio a notícia avassaladora: a família de Lino iria se mudar de cidade. Tudo o que construíram juntos foi interrompido de forma abrupta. A despedida na porta da escola caiu como um baque pesado sobre a mente sensível de Gabriel:
— Gabriel... Meus pais vão se mudar. Eles disseram que é para muito longe e eu não vou mais estudar aqui...
— Mas por quê, Lino?! — perguntou Gabriel, desesperado. — Você está tão bem aqui com a gente!
— Eu não sei... Eu não queria ir, mas vou ter que ir.
Eles se despediram e nunca mais voltaram a se ver. Na cabeça ingênua do garoto de sete anos, a ausência do amigo gerou o primeiro questionamento filosófico e doloroso da sua vida: "Nós estávamos tão felizes aqui brincando... Por que ele teve que ir embora? O mundo é injusto..."
Sem qualquer chance de reverter a situação, Gabriel teve de aprender a engolir a saudade e seguir em frente com os colegas que continuavam no prédio e na escola.
No último dia daquele ano, Gabriel e a mãe pegaram um ônibus para passar o Reveillon na casa da irmã mais velha. No meio do trajeto, o coletivo, que parou em um ponto, foi atingido e um estrondo violento vindo da traseira foi notado por todos, obrigando todos os passageiros a desembarcar. Um motociclista colidiu contra a traseira do ônibus e caiu no asfalto. Apesar do susto, o homem se levantou sem ferimentos graves.
Observando a cena, a mãe de Gabriel comentou em voz baixa:
— Nossa... Parece até que ele não quer ver 1994 chegar.
Mais tarde, na casa da irmã, enquanto aguardavam a contagem regressiva para a meia-noite, Gabriel ficou sentado num canto, mentalizando os números "1993" e "1994", analisando a forma de cada algarismo.
Quando os fogos começaram a surgir no céu anunciando a chegada do Ano Novo, as pessoas se abraçaram e desejaram felicidades umas às outras. Chegava 1994. Gabriel completaria oito anos naquele novo número que observava com tanta curiosidade.
Ele ainda não fazia ideia do que aquele ano lhe reservava.