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2화 · Broncas e Problemas Invisíveis

Broncas e Problemas Invisíveis

Aos cinco anos, Gabriel ingressou em uma nova escola. Era o momento de dar os primeiros passos no Jardim de Infância, local onde passaria anos cruciais da sua formação. se deparou com uma turma nova e rostos desconhecidos — embora alguns poucos já lhe fossem familiares. O menino crescia carregando uma característica que frequentemente lhe trazia aborrecimentos: a ingenuidade absoluta. Gabriel acreditava com extrema facilidade em tudo o que lhe diziam. Nos primeiros meses, a cena repetia-se quase diariamente: sua lancheira voltava para casa intacta. Acreditando cegamente nas piadas de mau gosto dos colegas, ele se recusava a comer. — Gabriel, o que é isso aqui? — questionava um garoto na hora do recreio. — É suco de laranja que a minha mãe mandou. — E esse outro negócio? — Biscoito recheado de chocolate. — Que nada! Essa bebida amarela é mijo... Mijo de galinha! E esse biscoito preto é cocô. Você não deveria beber isso! — Mas a minha mãe disse que é suco e biscoito... — murmurava Gabriel, confuso. — É mijo e cocô! Se eu fosse você, não comia isso de jeito nenhum. Diante da insistência coletiva, Gabriel cedia à dúvida e guardava tudo de volta. Em casa, a mãe abria a lancheira e suspirava, frustrada: — Meu filho, o lanche todo de novo? — Mãe, eu trouxe de volta porque eles disseram que era mijo e cocô... Eu não podia comer isso. — Mais uma vez essa história, Gabriel?! Eu já cansei de te falar que nunca faria uma coisa dessas! Eu jamais daria algo nojento para você comer! — Mas, mãe... Eles são vários e todos dizem a mesma coisa. — Não acredite neles, acredite na sua mãe! Ele silenciava. No fim, a solução encontrada pela mãe foi substituir o lanche por opções que não gerassem margem para as chacotas dos colegas. Pouco tempo depois, outro episódio marcou sua rotina. Durante o horário de aula, Gabriel saiu rapidamente da sala junto com outros colegas para checar se a professora já estava retornando pelo corredor. Quando a figura da docente apontou ao fundo, os garotos correram de volta, entraram e bateram a porta. Quando Gabriel tentou girar a maçaneta, ela não cedeu. Na sua percepção ingênua, tinham-no trancado do lado de fora. Desesperado, o menino começou a esmurrar a madeira, chorando alto: — Abre a porta! Por favor, abre! A professora aproximou-se, irritada com o escândalo no corredor: — O que você está fazendo fora da sala, Gabriel? Eu já falei que ninguém deve sair sem a minha autorização! — Tia... Eles me trancaram aqui fora! — soluçou ele. — Trancaram onde? — A professora segurou a maçaneta, girou-a com facilidade e abriu a porta. — A porta não está trancada nenhuma! Agora entra e não faça mais isso! Gabriel entrou de cabeça baixa, engolindo o choro. Sentia um aperto no peito por ter levado mais uma bronca severa sem compreender exatamente o que fizera de errado. O ano passou e veio 1992. Aos seis anos, Gabriel avançou para a fase da Alfabetização. No tão aguardado primeiro dia de aula, ocorreu algo bizarro. Ao acordar, o menino tentou colocar os pés no chão, mas suas pernas simplesmente não responderam: — Mãe... Eu não estou sentindo as minhas pernas. Não consigo ficar de pé. — Como assim, menino? Levanta dessa cama! Gabriel fez força, tentou firmar o corpo, mas desabou no tapete. A mãe, assustada com a situação, decidiu deixá-lo em casa descansando. Conforme as horas passavam e a tarde avançava, a sensibilidade retornava gradativamente. O fenômeno misterioso repetiu-se exatamente nos três primeiros dias de aula e, em seguida, desapareceu da mesma forma repentina e inexplicável como surgira. Como a família morava no próprio edifício onde o pai trabalhava como porteiro-chefe, o prédio era o grande quintal de Gabriel. Foi num desses dias de folga forçada que ele conheceu Dimitri, um garoto alguns meses mais velho, filho de um dos moradores. Os dois passaram a tarde brincando pela galeria. Gabriel estava radiante, convicto de que fizera um grande amigo. De volta à rotina escolar, as dificuldades de adaptação acentuaram-se. Se quando bebê ele já era agitado a ponto de rolar na cama, aos seis anos parecia fisicamente incapaz de permanecer quieto por longos períodos. E as broncas tornaram-se diárias: — Gabriel! Eu já falei que não é para ficar andando pela sala! Senta no seu lugar e presta atenção! No dia seguinte: — Gabriel, pare de falar! Assim você não presta atenção e não deixa os seus colegas se concentrarem! Surgiram os primeiros castigos. A professora mudou sua carteira para o canto isolado da sala, longe dos amigos mais próximos, na tentativa de conter sua agitação. Gabriel esforçava-se para obedecer. Sentava-se, prometia a si mesmo ficar quieto e prestava atenção na lousa. Contudo, em questão de minutos, quando dava por si, já estava conversando de novo ou de pé ao lado da mesa de alguém, sem sequer ter percebido o exato momento em que se levantara. E lá vinha outra repreensão. Na reunião de pais ao final do bimestre, a mãe quis saber como o filho estava se saindo: — A senhora é a mãe do Gabriel? — indagou a professora. — Sim, sou eu. Como ele está indo nas aulas? — Olhe... Ele me dá bastante trabalho. Não fica quieto nunca! Ou está andando pela sala ou está falando demais. Mas eu gosto dele, é um bom garoto. Aquele padrão de conversa repetiu-se ao longo de todo o ano letivo. Era o período de aprender efetivamente a ler e escrever, e Gabriel enfrentava uma dificuldade particular nos ditados. A professora pronunciava as palavras, ele as escrevia e, ao revisar, não percebia nada de errado. Porém, quando recebia as folhas corrigidas, frequentemente encontrava letras faltando. A palavra “voto”, por exemplo, sistematicamente aparecia escrita como “vot”. Apesar das dificuldades nas aulas, o campo social trazia alegrias. Entre os colegas de turma, Gabriel aproximou-se de Lino. A amizade entre os dois floresceu rapidamente; matricularam-se juntos na aula de natação e compartilharam momentos inesquecíveis de diversão ao longo daquele ano. No prédio, a convivência com Dimitri continuava. Em uma tarde quente, durante uma brincadeira com a mangueira do jardim, Dimitri molhou Gabriel da cabeça aos pés. Ao ver o filho encharcado, a mãe decretou a proibição: — Eu não quero mais você brincando com o Dimitri! Você vai acabar pegando uma pneumonia desse jeito! A ordem, contudo, duraria pouco tempo. Gabriel voltaria a encontrar o vizinho pelos corredores em breve. E aquela relação, que até então parecia apenas mais uma amizade comum de infância, estava apenas começando.

2화 끝

다음: 3화 · O Mundo é Injusto

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