A fortaleza sombria e imponente surge novamente em meio à tempestade. Uma chuva torrencial desaba sobre a extensão do complexo, castigando as construções menores espalhadas ao redor do grande palácio no centro.
Em seu interior, o mesmo servo encontra-se ajoelhado diante de seu líder. A penumbra do salão permite identificar apenas os recortes das ombreiras de sua armadura, a capa pesada e parte de seu rosto severo:
— Mestre... Muitas crianças já foram identificadas, recrutadas e trazidas aqui para a Arx Nefanda. Todas já iniciaram seus treinamentos. Algumas possuem um potencial imenso para o nosso exército e, em breve, receberão suas armaduras.
— Excelente, Christopher — respondeu o líder místico, com a voz ecoando pelas paredes de pedra. — Precisamos estar um passo à frente deles para destruir tudo antes que tenham tempo de se defender. Mas e quanto ao Primaz... Já foi localizado?
— Esse era justamente o próximo assunto que eu desejava trazer, Mestre — disse Christopher, erguendo o olhar. — Nós o localizamos. E será muito mais fácil de eliminar do que eu imaginava. Já estou tratando de resolver isso. Passei a missão a um dos meus melhores homens e ele a cumprirá o mais rápido possível.
Por um breve instante, o silêncio do salão pareceu se tornar denso e sufocante. Então, o Mestre voltou a falar:
— Então finalmente o encontramos... Espero que vocês o eliminem sem maiores problemas. Não quero falhas. Agora, vá!
— Sim, senhor — respondeu Christopher, curvando-se antes de se retirar.
Chegara o ano de 1994. Gabriel viajou durante as férias, comemorou seus oito anos de idade e retornou para casa pronto para iniciar mais um ano letivo. Os dias corriam com aparente normalidade; o garoto já tinha superado a dor da partida de Lino e convivia bem com os colegas de turma na escola.
Em casa, ele costumava brincar sozinho. Dono de uma imaginação fértil e vibrante, criava mundos inteiros com brinquedos improvisados e se divertia no seu próprio ritmo.
Porém, em uma tarde ensolarada, após se cansar de suas invenções e tomar um banho, Gabriel sentiu uma vontade incomum de sair do apartamento. Desceu até a galeria do prédio — algo que raramente fazia — e encontrou Dimitri e sua prima sentados nos bancos de madeira ao lado da escadaria.
— Ei, Gabriel! Vem brincar de pique-pega com a gente! — convidou Dimitri.
Por um segundo, Gabriel hesitou. Ele sabia que não deveria aceitar. Era uma criança obediente e temia contrariar as ordens da mãe, que o proibira de andar com aquele vizinho. Contudo, a vontade de ter companhia e brincar falou mais alto: ele aceitou.
Eles correram de um lado para o outro na galeria, riram e se divertiram bastante. Quando Gabriel deu por si, o tempo passara rápido demais e já era hora de subir, tomar outro banho e se preparar para a escola no dia seguinte.
Ao entrar em casa, o menino comentou de forma ingênua:
— Mãe... Eu fiquei lá fora brincando com o Dimitri e a prima dele.
A mãe se virou imediatamente, franzindo a testa:
— Gabriel, eu já te falei que não queria você brincando com esse menino! Já esqueceu que ele te deixou todo encharcado daquela vez?
— Ah, mãe... Foi legal! Eles foram legais comigo. E eu tenho sempre que brincar sozinho...
— Eu não confio nele e não quero você brincando com ele — decretou ela, irredutível.
Apesar da bronca, aquele jogo de pique-pega na galeria serviu de pretexto para que Dimitri se reaproximasse de Gabriel, convidando-o para visitar seu apartamento nos dias seguintes. A amizade parecia estar sendo retomada — ou, pelo menos, era nisso que Gabriel acreditava.
Numa noite, dias após ter voltado a brincar com Dimitri e ao se deitar na cama, o menino olhou para o teto e refletiu em silêncio: "Eu gosto das brincadeiras que eu crio sozinho... Mas tá sendo mais legal brincar com o Dimitri. Ele mudou, não tá fazendo nada de errado comigo e a gente tá se dando muito bem."
Com esse pensamento reconfortante, Gabriel pegou no sono, feliz por ter conquistado um amigo.
Enquanto o garoto dormia pacificamente, no topo do edifício, uma silhueta escura mantinha-se de pé. O vento daquela noite uivava e mexia levemente o cabelo daquele guerreiro misterioso.
Do alto do prédio, o enviado da Arx Nefanda observava cada detalhe do ambiente: os horários em que Gabriel chegava da escola, os momentos em que descia para a galeria, a disposição das janelas do apartamento e toda a rotina daquele garoto.
O enviado de Arx Nefanda aguardava apenas a oportunidade perfeita para cumprir sua missão.