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Ch. 3 · O Mundo é Injusto

O Mundo é Injusto

Em meio a uma densa e fechada floresta, portões de ferro e muros de pedra gigantescos cercavam uma imponente e sombria fortaleza. No centro do complexo, se erguia um palácio monumental cuja simples presença pesava o ambiente numa imensa opressão sob um céu eternamente acinzentado de dia e de um negro profundo durante a noite. Nos aposentos mais internos e sombrios daquele santuário do Mal, o líder supremo recebia um de seus servos, que se ajoelhou imediatamente aos seus pés: — Mestre... Nós já estamos identificando várias crianças-prodígio pelo planeta. No entanto, ainda não conseguimos rastrear nenhum sinal do Primaz. — Muito bem — respondeu a voz cavernosa do líder. — Recrutem o maior número possível dessas crianças para formar o nosso exército. E, assim que encontrarem o Primaz... o matem imediatamente, antes que ele desperte! Agora, vá! O subordinado se curvou e se retirou rapidamente da presença de seu senhor. O ano era 1993. Gabriel ingressava na 1ª série do Ensino Fundamental, mas os seus problemas invisíveis continuavam a acompanhá-lo silenciosamente. Naquela turma, a grande implicância da professora era com a caligrafia do menino, que parecia torta e desalinhada no caderno: — Gabriel, a sua letra é muito feia e tem alguma coisa errada com a sua escrita. Acho que você não enxerga direito o que eu escrevo na lousa. — Tia, eu enxergo sim! — se defendeu o garoto, franzindo os olhos. — Eu consigo ver bem o quadro. — Então faremos o seguinte: vou falar com a sua mãe para te levar ao oftalmologista. Se o médico disser que você não tem nada na vista, eu te pago um refrigerante no recreio! A mãe marcou a consulta e, no dia agendado, acompanhou o filho até ao hospital. No consultório, o médico posicionou Gabriel diante do quadro de leitura e apontou para as letras: — Me diga quais letras você está vendo ali, garoto. — Vejo A... R... F... X... I... O médico trocou a lâmina para uma linha de caracteres menores: — E agora? — B... L... C... O... P! O médico virou-se para a mãe e sorriu: — Olha, mãezinha... O seu filho tem uma visão perfeita. Não há problema algum nos olhos dele. No dia seguinte, Gabriel voltou radiante à escola e contou o resultado à professora. Na hora do recreio, cumprindo rigorosamente a promessa, ela comprou e entregou-lhe o refrigerante gelado. Aquele ano seguiu com marcos importantes na família, como a comemoração de um ano da sua sobrinha, e o fortalecimento da amizade com Lino, o colega com quem fizera natação no ano anterior. Os dois tornaram-se inseparáveis: se sentavam juntos na sala de aula, brincavam no recreio e até as mães de ambos se aproximaram, fazendo compras juntas no supermercado. Parecia uma amizade que duraria para sempre. — Gabriel, para de andar para lá e para cá com esse carrinho pelo mercado! — pedia Lino, rindo da agitação do amigo. — Eu só estou passeando com ele... — respondia Gabriel, empurrando a estrutura de metal. — Mas não pode! O moço do mercado vai ver e vai brigar com a gente. — É que eu não consigo ficar parado só olhando para o carrinho, Lino... Porém, em um dia comum, veio a notícia avassaladora: a família de Lino iria se mudar de cidade. Tudo o que construíram juntos foi interrompido de forma abrupta. A despedida na porta da escola caiu como um baque pesado sobre a mente sensível de Gabriel: — Gabriel... Meus pais vão se mudar. Eles disseram que é para muito longe e eu não vou mais estudar aqui... — Mas por quê, Lino?! — perguntou Gabriel, desesperado. — Você está tão bem aqui com a gente! — Eu não sei... Eu não queria ir, mas vou ter que ir. Eles se despediram e nunca mais voltaram a se ver. Na cabeça ingênua do garoto de sete anos, a ausência do amigo gerou o primeiro questionamento filosófico e doloroso da sua vida: "Nós estávamos tão felizes aqui brincando... Por que ele teve que ir embora? O mundo é injusto..." Sem qualquer chance de reverter a situação, Gabriel teve de aprender a engolir a saudade e seguir em frente com os colegas que continuavam no prédio e na escola. No último dia daquele ano, Gabriel e a mãe pegaram um ônibus para passar o Reveillon na casa da irmã mais velha. No meio do trajeto, o coletivo, que parou em um ponto, foi atingido e um estrondo violento vindo da traseira foi notado por todos, obrigando todos os passageiros a desembarcar. Um motociclista colidiu contra a traseira do ônibus e caiu no asfalto. Apesar do susto, o homem se levantou sem ferimentos graves. Observando a cena, a mãe de Gabriel comentou em voz baixa: — Nossa... Parece até que ele não quer ver 1994 chegar. Mais tarde, na casa da irmã, enquanto aguardavam a contagem regressiva para a meia-noite, Gabriel ficou sentado num canto, mentalizando os números "1993" e "1994", analisando a forma de cada algarismo. Quando os fogos começaram a surgir no céu anunciando a chegada do Ano Novo, as pessoas se abraçaram e desejaram felicidades umas às outras. Chegava 1994. Gabriel completaria oito anos naquele novo número que observava com tanta curiosidade. Ele ainda não fazia ideia do que aquele ano lhe reservava.

End of chapter 3

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